16/01/2021 08h25

Tragédia em Presidente Getúlio completa um mês; prejuízos passam de R$ 60 milhões

Cidade contabiliza danos e trabalha na reconstrução enquanto as cicatrizes emocionais ainda marcam o Alto Vale

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Quase 40 casas foram completamente destruídas pela enxurrada (Foto: Patrick Rodrigues)

Quase 40 casas foram completamente destruídas pela enxurrada (Foto: Patrick Rodrigues)

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O vaivém de caminhões e máquinas diminuiu em Presidente Getúlio, mas está longe de acabar. Um mês depois da tragédia que arrastou casas e matou 18 pessoas, há muito trabalho por fazer. Quanto mais próximo do final da Rua Getúlio Vargas, a principal do bairro Revólver, o mais atingido pela enxurrada, maiores os sinais da destruição.

 

Desde o dia 17 de dezembro os esforços para tentar devolver a normalidade ao município não tiveram descanso. Marcelo Travaglia é um dos servidores da prefeitura que de dentro de uma máquina perdeu as contas de quantas barreiras retirou de estradas da região. Nesta semana ele teve a missão de limpar o acesso aos sítios localizados na ponta da Rua Getúlio Vargas, de onde o mar de lama desceu.

 

Nenhum terreno foi atingido na localidade, mas os deslizamentos destruíram vários pontos da rua. Pouco mais de 10 pessoas tiveram de ser retiradas de helicóptero naquela manhã. Entre elas a esposa, filho e pai de Alexandre da Silva, que também é servidor e auxiliou Travaglia na desobstrução da via. Silva e a família moraram temporariamente na casa da mãe dele, no Centro, até conseguirem retornar.

 

Ele e outros proprietários passaram o mês fazendo longas caminhadas para alimentar os animais que ficaram para trás. Silva abriu uma picada usando um facão e semanalmente levava nas costas rações para os bichos. Parte do trecho de mais de três quilômetros fazia pedindo carona. O restante, mata a dentro, precisava ser a pé. Com a retirada das barreiras, chegou ao fim o sacrifício quase que diário.

 

Prejuízo milionário

 

O prefeito Nelson Virtuoso calcula que 90% das limpezas nas ruas foram concluídas, mas os serviços de reconstrução devem durar pelo menos um ano. Foram quase 40 pontes destruídas, 14 mil metros quadrados de pavimentação, tubulações entupidas ou arrancadas pela força da água, espaços como escolas e unidades de saúde tomados pela lama e veículos municipais totalmente danificados. Ao todo, somadas as perdas do poder público e da comunidade, o prejuízo passa de R$ 60 milhões.

 

 

— Tem lugares que estamos conseguindo chegar somente agora, então esse valor provavelmente vai aumentar, infelizmente o estrago foi muito grande —  constata Virtuoso.

 

Tão grande que das três cidades do Alto Vale castigadas pelo fenômeno no mês passado, apenas Rio do Sul e Ibirama já liberaram o Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) para os moradores afetados. A prefeitura de Presidente Getúlio ainda tenta, junto à Caixa Econômica Federal, conseguir que todos os habitantes com saldo disponível recebam o dinheiro, já que, de um jeito ou de outro, praticamente todos sofreram de alguma forma.

 

A quantia será bem-vinda, principalmente àqueles que perderam tudo, um rombo de mais de R$ 6 milhões, resumidos em 80 casas danificadas e 38 completamente destruídas. Foi o que aconteceu com Ingo Wiese, 69, e Maria Ewers, 51. Ele morava mais próximo ao final da Rua Getúlio Vargas. Ela, no começo.

 

Um mês depois, cidade trabalha na limpeza dos sinais de destruição

Um mês depois, cidade trabalha na limpeza dos sinais de destruição (Foto: Patrick Rodrigues)


O ribeirão que corta o bairro mudou de direção devido ao entulho que arrastou dos morros e agora passa em cima de onde estava a residência de Wiese. O prefeito conta que um projeto para devolver o ribeirão ao lugar dele saíra do papel ainda este ano, mas Wiese não sabe se isso significará liberação para reconstruir no mesmo local ou não. No entanto, não faz diferença. O idoso não pretende recomeçar no mesmo terreno.

 

Desânimo para recomeçar

 

Maria, apesar de ter perdido a casa e a oficina do marido, teve o aval da Defesa Civil para erguer novas estruturas no mesmo ponto. Endividado, sem FGTS ou qualquer reserva de emergência, o casal está construindo um galpão para voltar a trabalhar graças a doações. O material e mão de obra foram oferecidos por familiares e amigos.

 

— Estamos ganhando até ferramentas. Usadas, mas para nós são bem-vindas, porque é um recomeço. Nós temos que recomeçar, não podemos abaixar a cabeça — diz Maria enquanto tenta conter as lágrimas.

 

Maria tem um semblante cansado, como se dormisse pouco diariamente. A impressão é confirmada pelo relato de que desde aquela noite de terror o sono dela não tem sido o mesmo. Noites em claro, alimentação irregular e vontade de desistir ao olhar o terreno vazio e enlameado, que antes abrigava um jardim florido, a oficina, a casa e uma área de festa com piscina, fazem parte da rotina da mulher.

 

O desânimo nos discursos preocupa a prefeitura, que tem uma equipe à disposição para oferecer assistência psicológica às vítimas. Porém, a demanda é alta. Quem diria que algo dessa proporção aconteceria da pequena Presidente Getúlio, de pouco mais de 17 mil habitantes, como estima o IBGE?

 

Luta solitária

 

Um dos desafios é lidar com a estrutura de uma prefeitura menor, mas que precisa desempenhar papel de gigante. E rápido. A escola que abriga as doações voltará a receber estudantes no próximo mês. As creches inundadas de lodo também. Na Defesa Civil municipal há um funcionário. São os engenheiros da Secretaria de Planejamento que ajudam na avaliação das condições dos terrenos para retorno ou não dos moradores.

 

 

A ajuda que veio de outros municípios e até estados já foi suspensa. Nos primeiros 15 dias após a tragédia chegou a haver 200 máquinas, tratores e caçambas pelas ruas. Atualmente 60 funcionários e dez empresas terceirizadas trabalham na limpeza. A ação incansável dessas pessoas e dos moradores já dão resultados perceptíveis aos olhos.

 

No Centro, os únicos indícios de que houve a tragédia são algumas marcas nas paredes, que denunciam a altura a que a água chegou, pequenos volumes de terra amontoados em alguns cantos e uma poeira baixa, que é combatida com vassouras e caminhões-pipa.

 

Além disso, há estabelecimentos que mudaram de local. Uma farmácia fechou e concentrou o atendimento em apenas uma loja. Formalmente nenhum negócio foi encerrado até o momento, mas os prejuízos com mercadorias perdidas e danos já são estimados pela Associação Empresarial e Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL) de Presidente Getúlio: quase R$ 30 milhões.

 
Prefeitura contratou empresas terceirizadas

Prefeitura contratou empresas terceirizadas (Foto: Patrick Rodrigues)


Para minimizar o impacto, o governo do Estado oferece linhas de crédito de R$ 30 mil a R$ 200 mil a juro zero. O Recomeça SC disponibilizará R$ 30 milhões aos empreendedores atingidos pela tragédia nas três cidades do Alto Vale.

 

Como ajudar

 

Parte das doações feitas no mês passado começou a se tornar um problema em Presidente Getúlio. O excesso de roupas enviadas já está sendo disponibilizado à toda a população e deve ser distribuído à Assistência Social de municípios vizinhos e entidades beneficentes, adianta Virtuoso.

 

 

Um mês depois da tragédia, a cidade precisa de móveis, materiais de construção e mão de obra para que famílias como a de Maria e Wiese possam ter um lar digno novamente. A indicação é que interessados em ajudar entrem primeiro em contato com o Centro de Referência de Assistência Social pelo 47 3352-2148.

 

Pesquisadores estudam fenômeno

 

A união do solo encharcado e chuva torrencial resultou na avalanche de terra que desceu dos vales no final da noite do dia 16 de dezembro e primeiros minutos de 17. Conforme o geólogo da Defesa Civil de Santa Catarina, Vitor Santini Müller, deslizamentos menores alimentaram outros que, somados à condição de umidade e à água, acabaram ganhando uma força incontrolável. Árvores enormes, pedras gigantes e muito barro tomaram conta das ruas.

 

—  As equipes continuam trabalhando na quantificação desse evento e também no entendimento da sua dinâmica como um todo —  diz Müller.

 

Não há previsão para esses laudos serem finalizados.

 

Um passo de cada vez

 

Maria escapou de morrer dentro de casa porque não pegou no sono e, ao ouvir os barulhos, saiu do local com o marido e a neta de dois anos. Wiese também deixou o imóvel com a esposa minutos antes de vê-lo desabar. Os vizinhos Iomira Saldanha, Vilma Saldanha e Alvino Saldannha se abrigaram sob a única parte da garagem que não cedeu.

 

Em comum, essas famílias têm o fato de serem sobreviventes da tragédia, a tristeza de terem perdido absolutamente tudo o que construíram durante a vida e a necessidade de recomeçar. Um mês depois, a ficha caiu. A tristeza toma conta, os moradores tentam definir que passo darão primeiro. Carregam o trauma, têm pesadelos, sentem medo de chuva forte, lamentam pelos conhecidos que se foram.

 

Na Rua das Missões, local em que encontraram os últimos corpos desaparecidos, o cheiro de lodo deu lugar ao de jasmim plantado em um quintal. Em um dos troncos de árvores ainda caídas e amontoadas perto do ribeirão, pequenas plantas brotaram, resultando em minúsculos pontos verdes no cenário marrom. É como se o universo insistisse em sinalizar que é preciso renascer em meio à dor. Um passo de cada vez. A vida tem que continuar.


POR: BIANCA BERTOLI / JORNAL DE SANTA CATARINA – NSC

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