25/09/2021 10h35 - Atualizado em 25/09/2021 10h36

Dono do “Dr. Honesto”, trailer sem atendente na BR-470, coleciona cartas deixadas por clientes

Renato Lagatta conta com a honestidade alheia para manter pontos de venda em Rodeio e Apiúna e gerar renda à casa de apoio que construiu há 15 anos

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Quem passa pela BR-470 em Rodeio observa o trailer do Dr. Honesto, verde e amarelo, que vende produtos sem atendente. Na pequena urna que recolhe o pagamento dos clientes, além das notas e moedas, papéis que evidenciam ainda mais a essência de muitos brasileiros: são as cartas do Dr. Honesto.

 

Renato Lagatta, 59 anos, é a pessoa que tornou o projeto realidade. Diante do primeiro trailer inaugurado há um ano e oito meses, o paulista que mora em SC há três décadas segura alguns papéis nas mãos, cada um com seu tamanho, letras, cores de tinta e erros de português. 

 

São alguns dos bilhetes e cartas que recebe semanalmente pela caixinha montada para os clientes colocarem o pagamento dos quitutes.

Venho através desta informar que peguei algumas coisas para o café dos meus filhos, mas não vou roubar, quando eu tiver, prometo devolver. Obrigado”, diz uma delas. Há outras que parabenizam Renato pela iniciativa. 

 

Algumas revelam a incredulidade daqueles que achavam que Dr. Honesto não duraria um mês. E há também muitos que usam o papel como se fosse um recibo, especificando o que pegou e quantos depositou na caixa.

 

Os corretos predominam

 

Renato lembra quando a primeira carta chegou. Era começo de 2020 e fazia poucas semanas que o trailer havia sido inaugurado. As pessoas ainda estavam se acostumando com o formato — e questionando muito se daria certo. 

 

A primeira refletiu exatamente esse sentimento. Um caminhoneiro confessou, por escrito, que tinha certeza que o projeto não sobreviveria à desonestidade e maldade humana, mas que passava frequentemente em frente ao trailer e percebia que estava enganado.

Estava mesmo. Renato já calculou e concluiu que “a gama de honestidade passa de 99%”. Ou seja, é possível ter lucro em um negócio que consiste em acreditar que quem parar e pegar uma pipoca, café, pão, geleia, cocada ou outros itens ali disponibilizados vai pagar a conta mesmo sem ser cobrado.

 

Com a curiosidade dos motoristas sobre a atração, Renato não demorou a usar um carro velho e danificado como segundo ponto de venda do Dr. Honesto, do outro lado da via, evitando a travessia dos interessados.

 

“Vou pintar o trailer de verde e amarelo”

 

O dinheiro que consegue com as vendas cobre parte das contas da casa de apoio que fica atrás do primeiro trailer em Rodeio. É por causa dela que o Dr. Honesto nasceu. Renato comprou o enorme terreno às margens do Km 85,5 há 15 anos. À época, atuava em uma distribuidora de combustíveis e pensava em construir um posto.

 

Como já fazia trabalhos voluntários em São Paulo, Renato decidiu, enquanto o posto de gasolina não se tornasse realidade, abrir as portas para pessoas em situação de rua. A casa de apoio serve exatamente para o que o nome sugere. No local, quem não tem um teto pode passar a noite em uma das 25 camas, fazer refeições gratuitamente, tomar um banho e se aquecer com cobertores e roupas doadas.

 

Em média, o imóvel atende diariamente oito andarilhos. Antes, as doações de alimentos e a participação mais ativa de outros voluntários amenizavam os gastos de Renato com a residência, mas o aumento nos preços nos últimos tempos e a evasão de apoiadores derrubaram a rede de ajuda. Com as faturas sempre atrasadas, o administrador teve de inovar.

 

Primeiro, tentou vender os pães e geleias feitos pela esposa no próprio carro, circulando pelas ruas. No final do dia, o lucro não era suficiente nem para pagar a gasolina. Foi então que olhou o próprio trailer, em desuso, e lembrou do modelo de comércio existente na Europa.

 

Não tinha outro jeito, eu estava tirando dinheiro da minha casa para manter a de apoio. Ou eu fazia algo ou ela fecharia. Pensei: ‘Vou pintar o trailer de verde e amarelo e ver o que dá‘”, conta ele.

 

O lucro com o Dr. Honesto está longe de cobrir os R$ 8 mil que Renato gasta, em média, com as contas do imóvel, mas trouxe fôlego. Ver a transformação na vida de alguns dos abrigados também dá ânimo. Há homens que conseguiram emprego e puderam recomeçar graças à casa de apoio.

 

Já pensei em desistir várias vezes, mas algo me diz: ‘Continua, continua‘”.

 

Renato sustenta uma casa de apoio com o dinheiro que recebe nos 'Doutores Honestos'.

Renato sustenta uma casa de apoio com o dinheiro que recebe nos “Doutores Honestos” (Foto: Patrick Rodrigues)


Tudo que vai… Volta

 

A lei do retorno parece funcionar no Dr. Honesto. A família de um dos andarilhos atendidos na casa de apoio contatou Renato para agradecer o serviço prestado ao familiar e quis presentear o projeto de alguma forma. Foi assim que surgiu o terceiro ponto de venda em fevereiro deste ano: um trailer às margens da BR-470 em Apiúna, no sentido ao Alto Vale.

 

A doação do veículo possibilitou atender os pedidos que os caminhoneiros faziam para deixar o Dr. Honesto aberto à noite. Apenas em Apiúna isso acontece, já que fica em uma região mais povoada, perto de uma borracharia aberta 24 horas.

 

A sugestão foi feita através dos bilhetes que Renato coleciona e que pretende transformar em um mural para ficar exposto dentro do trailer. Uma caixa exclusiva para os recados de clientes também deve ser criada. A pilha de papéis só aumenta, mas não é a única forma de comunicação. Quem encontra o perfil dele nas redes sociais também faz questão de deixar uma mensagem. Depois que apareceu na televisão, Renato diz ter sido bombardeado de carinho — e também de visitas de órgãos fiscalizadores.

 

Muitos que moram fora do país mandaram mensagem informando que a imagem do brasileiro melhorou, que mostramos que tem gente honesta aqui. Tem visitantes de países vizinhos que dizem que isso não daria certo na terra deles, ficam impressionados“, orgulha-se.

homem parado ao lado de uma placa onde está escrito "café quentinho"

Renato perdeu o filho em um acidente na BR-470 (Foto: Patrick Rodrigues)


Perda na BR-470

 

No começo, só eram vendidos no trailer pipoca, geleia e pão, tudo feito pela esposa de Renato. Aos poucos, novos produtos foram surgindo, como a famosa cocada de um baiano que se dispôs a ajudar o casal, o café, picolé e biscoito. Por enquanto, só é possível pagar com dinheiro, mas o proprietário cogita disponibilizar uma forma mais moderna de cobrança.

 

Renato vez ou outra leva puxões de orelha da família pela dedicação quase integral ao voluntariado, mas também tem o apoio dela. Pai de quatro filhos, o paulista perdeu um deles em 2005, justamente na

 

BR-470. Braço direito do pai, o jovem de 21 anos trafegava pela rodovia quando se envolveu em um acidente com caminhão, que destruiu o carro que ele conduzia.

 

Para a gente que fica é um sofrimento, mas meu filho teve 21 anos bem vividos. Tenho certeza que ele estaria me ajudando com o Dr. Honesto se estivesse aqui“.

 

Desonestidade tem um preço

 

Menos de 1% dos “clientes” que aproveitam a falta de atendente para furtar mercadorias ou dinheiro deu dor de cabeça ao proprietário cerca de 15 vezes. São pessoas que simulam depositar a quantia, mas colocam na urna papel em branco; que enchem o carro de produtos sem pagar por nenhum ou que, mesmo a pé, carregam o que podem para trocar por drogas.

 

Renato instalou uma câmera de segurança para visualizar todos esses episódios e poder entregar provas no momento de fazer o boletim de

 

ocorrência. Às vezes, o comportamento social resulta em solução antes da conclusão do inquérito policial.

 

Já houve criminoso exposto nas redes sociais que precisou deixar a região por ficar conhecido como o “ladrão do Dr. Honesto”. Prova que a proposta deu tão certo que todos se sentem responsáveis pelo sucesso dela. Se o Dr. Honesto vai bem, ainda há esperança.


POR: BIANCA BERTOLI – JORNAL DE SANTA CATARINA / NSC TOTAL

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