13/06/2018 08h17

O que a ciência diz de pessoas educadas que ficam furiosas quando tem fome

Vale observar que o mesmo princípio pode se aplicar a outros estados físicos

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HypeScience

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Você certamente conhece o conceito: aquela irritação irracional ou ódio profundo que você sente por alguma situação que talvez não devesse te causar tanto estresse… Se você não estivesse com fome.

 

A fome parece capaz de causar uma transformação no temperamento das pessoas, mas de que forma isso ocorre anda é um mistério para a ciência.

 

A pesquisadora em psicologia e neurociência Jennifer MacCormack, da Universidade da Carolina do Norte (EUA), queria entender melhor o fenômeno. “O mecanismo não está claro, ou seja, como a fome afeta as emoções ou os processos emocionais exatos [das pessoas]”, disse ao portal NPR.

 

Para descobrir, ela projetou alguns experimentos especialmente para irritar pessoas famintas.

 

Fome e irritação

Em um dos experimentos, MacCormack reuniu 118 alunos de graduação que estavam em jejum há cinco horas ou mais e 118 outros que comeram logo antes de irem ao laboratório. Os participantes não sabiam que o estudo era sobre sentir-se faminto.

 

Primeiro, metade das pessoas de cada grupo teve que escrever uma redação sobre emoções, como uma forma de fazê-las pensar sobre como estavam se sentindo. A outra metade escreveu uma redação sobre um tema neutro.

 

Em seguida, MacCormack pediu que todos fizessem um longo e árduo exercício no computador. “Eu projetei essa tarefa com círculos coloridos. É difícil, as cores são muito brilhantes e ruins de se olhar, e tem centenas de testes”, explicou a pesquisadora.

 

Quando o participante estava prestes a terminar a tarefa, o programa simulava uma falha. Uma tela azul aparecia, e um pesquisador entrava na sala culpando a pessoa pelo acidente. “Quais botões você pressionou? Você deve ter causado a falha”, conta MacCormack. “Então nós os deixávamos sozinhos por dois minutos. Ninguém explodiu comigo, mas algumas pessoas pareciam nervosas e chateadas. Várias reviraram os olhos. Cruzaram os braços”.

 

Na última etapa, os alunos tinham que preencher um questionário projetado para parecer uma pesquisa de satisfação.

 

Resultados

Todos os alunos ficaram um pouco chateados com a experiência, mas os famintos que não tinham escrito sobre suas emoções foram os que ficaram especialmente irritados.

 

“Eles consideraram o pesquisador mais crítico. Eles disseram sentir significativamente mais ódio do que as outras pessoas”, afirmou MacCormack.

 

Em outro experimento, os participantes olharam para fotos positivas, negativas ou neutras, como um gatinho fofo, um cachorro raivoso ou uma pedra.

 

Quando as pessoas olharam para fotos positivas ou neutras, não houve nenhuma mudança emocional forte, independentemente de elas estarem com fome ou não. Entretanto, quando pessoas famintas olharam para imagens negativas, elas reagiram muito mais fortemente do que aquelas que haviam comido recentemente. As descobertas foram publicadas na revista científica Emotion.

 

A fome nos confunde

Segundo Elizabeth Davis, psicóloga da Universidade da Califórnia (EUA) que não trabalhou nos experimentos, esses resultados sugerem duas coisas: primeiro, que a fome sozinha não é suficiente para fazer alguém se irritar; é o contexto que importa. Pessoas famintas precisam estar em alguma situação negativa ou sujeitas a estímulos negativos para entrar em um estado de irritação anormal.

 

Segundo, parece que as pessoas são menos propensas a se tornarem irritadas se estiverem cientes de suas emoções.

 

Davis explica que a fome, por si só, já nos deixa um pouco aborrecidos, mas nem sempre percebemos que o nosso humor está mudando. Se algo desagradável ocorre nesse meio tempo, os sentimentos negativos são direcionados para esse gatilho e resultam em uma reação exagerada.

 

“A fome sinaliza para nós que algo está errado – que é hora de comer. Mas, como humanos, podemos atribuir erroneamente esse sentimento aversivo a algo externo antes de examinarmos o que nosso corpo está nos dizendo”, sugere a psicóloga.

 

Coma!


MacCormack concorda. Ela argumenta que, se uma pessoa está ciente de que está se sentindo um pouco estressada porque está com fome, é mais fácil separar esses sentimentos. O ideal, no entanto, é provavelmente apenas corrigir a origem do problema: comer.

 

Vale observar que o mesmo princípio pode se aplicar a outros estados físicos, conforme indica Davis. “Uma das coisas mais interessantes deste estudo é a ideia de que [sentimentos regulando o corpo, como a fome] são fisiologia que pode estar mais ligada às nossas experiências emocionais do que pensávamos”, disse.

 

Seguindo essa lógica, outros sinais internos do corpo, como sentir frio, calor ou dor também podem causar seus próprios gatilhos emocionais nas pessoas. [NPR]

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