11/03/2020 09h23

‘A gente não é bandido, é uma família’, diz mulher ferida em ação policial em Mafra

Silvana de Souza, de 39 anos, relata que policiais chegaram ao terreno dela por engano e que estavam com spray de pimenta e armas em punho

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A costureira Silvana de Souza, de 39 anos, que ficou ferida durante uma ação policial em Mafra, no Norte do estado, está se recuperando e sem trabalhar. Ela disse ao G1 que, em 19 de fevereiro, os policiais entraram no terreno dela com sprays de pimenta e armas em punho. Silvana quebrou a perna e precisou colocar 13 parafusos. A PM alega que ela desacatou os policiais, apresentou resistência e que o policial caiu sobre ela.

 

No vídeo registrado por um morador é possível observar ao menos seis policiais na propriedade no bairro Jardim América. Um deles leva a mulher com as mãos para trás. As imagens mostram que o policial usa a própria perna para encostar na mulher e imobilizá-la. Ela cai no chão e acaba machucando o nariz e uma das pernas. O rosto dela fica ensanguentado.

 

Relato

 

Ela contou que o alvo da PM era o vizinho. Na casa dele, já havia um carro da polícia. “Só que ela chamou reforço e o reforço em vez de chegar à casa do vizinho, entraram na minha”, disse. Ela declarou que é possível acessar o terreno ao lado sem passar pelo dela.

 

No dia, estavam na casa de Silvana o sobrinho dela, a filha, uma irmão e o cunhado. “Fui ver o que aconteceu, deparei-me com a PM invadindo nosso terreno com spray de pimenta”, disse. Ela declarou que foi atingida no olho duas vezes pela substância.

 

“Eu não gostei. A gente não impediu a polícia, todo mundo que estava ali não atentou [contra a PM]. Fui presa por desacato. Me revoltei mesmo, não precisava terem chegado daquela forma, desrespeitando criança. A gente não é bandido, a gente é uma família. Somos trabalhadores. Naquela ação, fomos tratados como marginais”, disse Silvana.

“Eu continuei ali desacatando os policiais e um me deu a voz de prisão. Em momento nenhum questionei ser presa, não reagi à prisão. Quando estava me levando, um policial me deu um chute na perna. Caí no chão, bati o meu nariz”, relatou.

 

Silvana disse que não foi algemada e que um policial deu um tapa na mão da irmã dela, que estava filmando a ação com celular, para que o aparelho caísse. Ela também afirmou que levou um soco de outro policial.

 

Ferimentos

 

“Fiquei ali no chão por um hora mais ou menos até que os bombeiros chegassem. Fui levada para um pronto-atendimento da minha cidade”, disse. Ela precisou passar por cirurgia e ficou dois dias e meio no hospital. Ela quebrou a perna esquerda.

 

“Na minha perna, coloquei uma placa, 13 parafusos e mais um cano que vai do meu tornozelo ao joelho”, disse. “Agora eu ando muito pouco, é só dentro de casa, do sofá para o banheiro, com a ajuda de muleta, cadeira de roda. Tenho que ficar com a minha perna elevada”, completou. No próximo dia 25, ela retorna ao ortopedista para saber se poderá voltar a colocar o pé no chão.

 

Em relação ao registro da ocorrência, ela relatou que prestou depoimento. “Esse mesmo policial que me agrediu pegou meu depoimento no hospital. Mas no outro dia, minha irmã fez a denúncia no Ministério Público e eu contratei um advogado”, disse.

 

 

“Sou costureira, dependo da minha perna para trabalhar. Não tenho como tirar renda, não posso trabalhar. Não sei como vai ficar”, lamentou. Ela trabalha com máquina de costura.

 

O que diz a PM

 

O comandante da PM de Mafra, Marcelo Pereira, diz que o policial caiu sobre mulher. “Ao ser levada para a viatura, sem algemas a princípio, demonstrou resistência, razão pela qual o policial que lhe conduzia fez uso da força, vindo ao chão, restando ferimentos superficiais no nariz, bem como, suspeita de fratura na perna esquerda”, informou em nota.

 

Segundo comando policial, as imagens registradas pelas câmeras das fardas dos policiais foram encaminhadas na semana seguinte ao Ministério Público. Até as 8h desta quarta, o G1 aguardava retorno da assessoria do MPSC.

 

“O Comando da Guarnição Especial de Mafra esclarece que os policiais militares são treinados a fazer o uso progressivo da força, bem como, observarem os protocolos operacionais padrão”‘, informou a PM em nota.

 

Segundo a PM, a ocorrência iniciou quando um motociclista fugiu de uma blitz. Ele teria cruzado vias da cidade cometendo infrações e teria se escondido em uma casa. Ainda de acordo com a polícia, os moradores teriam tentado impedir a prisão do motociclista.

 

Tanto no vídeo que circula nas redes sociais, quanto na filmagem feita na câmera das fardas, é possível observar que policiais e moradores discutem, até que a mulher é presa por desacato. Conforme a própria PM, após a confusão a mulher foi socorrida pelos bombeiros.

 

O delegado Nelson Vidal, que era o plantonista no dia do ocorrido, disse que a mulher que aparece nas imagens foi autuada por desacato e resistência à prisão, e que ela não foi levada à delegacia porque tinha sido encaminhada a um hospital em função dos ferimentos. Outras duas pessoas foram autuadas por desacato e resistência, sendo que uma delas, um homem, que também vai responder por ameaça.

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