25/06/2020 10h20

A fábula do “Rei do Rio”: o peso da barriga de Renato Gaúcho para a história do Fluminense

No aniversário de 25 anos do eterno gol de barriga, relembre como em poucos meses Renato se transformou de um jogador quase aposentado a ídolo da torcida tricolor

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Fonte: Globo Esporte

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Renato Gaúcho não tem muitas partidas, nem marcou tantos gols assim pelo Fluminense. No entanto, terá seu nome para sempre na história do clube. Ao todo, foram 72 jogos em que vestiu a camisa tricolor e 27 vezes que balançou as redes. Curiosamente, é justamente um gol que oficialmente não é seu que o alçou à galeria de ídolos: o eterno “gol de barriga” no Fla-Flu que decidiu o título carioca de 1995, conquista que completa 25 anos nesta quinta-feira. Na súmula e na opinião do árbitro da partida, Léo Feldman, até hoje o gol é de Ailton.

 

O SporTV reprisa a final nesta quinta-feira, às 18h (de Brasília).

 

Aliás, os contornos daquela decisão foram tão épicos que bastaria que Renato surgisse espontaneamente naquele segundo, apenas para empurrar aquela bola para dentro das redes, e sumisse logo em seguida que teria seu lugar na história garantido. Não por acaso, este Fla-Flu foi eleito maior jogo da história do Maracanã em enquete pelos 70 anos do estádio.

 

Quem nasceu depois ou era muito novo em 1995 pode se perguntar: “Mas isso tudo por causa de um estadual?”. Sim! Os tempos eram outros. Até aquele ano, o Carioca, por mais que também tivesse seus problemas de organização e fórmulas confusas, tinha muito mais valor e charme. Tanto que teve mais datas que o Brasileirão daquele ano (29 x 27). Conquistar um título estadual naquela época, no Rio, tinha quase um peso tão grande quanto vencer um Brasileiro.

 

Além do mais, o futebol carioca vivia um momento de alta. Times competitivos e intensa rivalidade. O Vasco era o atual tricampeão (1992, 1993 e 1994). O Botafogo, campeão em 1989 e 1990, tinha Túlio como grande nome. E o Flamengo, que vinha de título nacional em 92, montara um esquadrão para buscar um caneco em seu centenário: além de contratar Branco e Mazinho, campeões mundiais pela Seleção em 1994, e contar com a revelação Sávio, trouxe, como cereja do bolo, Romário, o melhor jogador do mundo na época, direto do Barcelona. Algo comparável a contratar Neymar, guardadas as devidas proporções, atualmente.

 

O Fluminense, por sua vez, vinha de um jejum de dez anos sem conquistas, desde o Carioca de 1985. Com dificuldades financeiras, formou um elenco modesto, mantendo peças da temporada anterior e trazendo reforços pouco conhecidos. O principal deles, até então, era de Ailton, vindo do futebol japonês.

 

Foi quando houve a grande sacada que mudou a sorte do Flu naquela competição: contratar Renato Gaúcho. O atacante, com 32 anos na época, andava em baixa após uma temporada ruim no Atlético-MG e pensava em parar de jogar. Então, o diretor Alcides Antunes foi até Búzios na companhia do repórter Pierre Carvalho para convencer o jogador a vestir a camisa tricolor. Após idas e vindas, as partes se entenderam.

 

Um medalhão quase aposentado, ídolo de um outro tricolor, o Grêmio, e cuja maior identificação no Rio era com o Flamengo, onde foi campeão em 1987. Daria certo? O casamento entre Flu e Renato deu mais certo do que qualquer um imaginava.

 

Renato provou ser tudo o que o Fluminense precisava para aquele ano. Uma estrela com história e personalidade, para fazer frente à forte concorrência de um badalado Romário. Mal sabia o Baixinho, que se autoproclamava “deus” em entrevistas da época, que o regime no futebol carioca era monárquico e que um rei estava prestes a ser coroado.

 

A frieza dos números poderia sugerir que Renato não era protagonista do Flu naquele campeonato. Em razão de lesões, o atacante desfalcou o time em nove dos 28 jogos da competição. Aliás, você sabia que o camisa 7 só havia feito três gols antes daquele histórico Fla-Flu de 25 de junho?

 

Renato Gaúcho no Carioca de 1995

 

  • Jogos: 19/28
  • Gols: 5 ⚽⚽⚽⚽⚽
  • 5ª rodada do 2º turno (1ª fase): Flu 3 x 1 Fla (1 gol ⚽)
  • 6ª rodada do 2º turno (1ª fase): Flu 3 x 1 Friburguense (1 gol ⚽)
  • 5ª rodada do 1º turno (Octagonal): Fla 3 x 4 Flu (1 gol ⚽)
  • 8ª rodada do 2º turno (Octagonal): Flu 3 x 2 Fla (2 gols ⚽⚽)

 

Foram cinco gols no campeonato, quatro em Fla-Flus. O cara se transformava em clássicos, principalmente contra o Rubro-Negro. Um carrasco. Renato demorou um pouco a balançar as redes com a camisa do Flu. Foi apenas na 5ª rodada do 2ª turno, em seu sexto jogo pelo clube: abriu o placar na vitória por 3 a 1 sobre o arquirrival. Marcou na rodada seguinte em triunfo sobre o Friburguense e voltou a balançar as redes sete jogos depois, no também grandioso Flu 4 x 3 Fla.

 

Veio então a grande decisão. Dia 25 junho de 1995. Era a última rodada do octagonal final. Cerca de 120 mil torcedores lotavam e coloriam um Maracanã de uma forma que nunca mais se repetirá.

 

Em um clássico com chuva, expulsões e reviravoltas, Renato sintetizou naquele dia o espírito de luta daquele time tricolor. Depois de passar a semana inteira correndo contra o tempo em razão de uma lesão muscular e ser dúvida para a decisão, o camisa 7 se entregou em campo. Abriu o placar aos 30 minutos e viu Leonardo marcar o segundo antes do intervalo.

 

Os dois gols do Flamengo, que tinha vantagem do empate, na segunda etapa pareceram mais capricho divino para tornar ainda mais heroica a vitória tricolor. E a três minutos do fim do tempo regulamentar, Renato estava ali. Predestinado. No lugar certo e na hora certa, para entrar para a eternidade do Flu. O centenário era rubro-negro, mas a festa era tricolor.

 

E foi assim que a torcida do Fluminense voltou a comemorar um título após dez anos e que o Rio de Janeiro coroou um novo rei.

 

Histórica capa do jornal O Globo do dia 27 de junho, com Renato Gaúcho vestido de "Rei do Rio" — Foto: Acervo / O Globo

Histórica capa do jornal O Globo do dia 27 de junho, com Renato Gaúcho vestido de “Rei do Rio” — Foto: Acervo / O Globo

 

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