26/05/2019 20h13 - Atualizado em 23/05/2019 16h15

Conheça histórias de amor por filhos gerados em outras barrigas no Estado de SC

Confira essas lindas histórias

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TJ/SC

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Há quem diga que “Família é tudo igual”, mas em Santa Catarina há uma pluralidade imensa nessa instituição. Nesta Semana Nacional da Adoção, o Núcleo de Comunicação Institucional (NCI) do Tribunal de Justiça de Santa Catarina (TJSC), por meio de suas assessorias de imprensa regionais, conta as histórias de seis famílias, de norte a sul do Estado, que possuem inúmeras diferenças mas um elo comum: o amor por filhos gerados em outras barrigas. São casos de adoção pioneiros, que emocionam, quebram preconceitos e surpreendem. Confira os relatos de pais adotivos que residem nas cidades de Joinville, Criciúma, Lages, Chapecó e Blumenau:

 

Joinville

“Dar de si sem pensar em si”

A enfermeira Maria (nome fictício) trabalha numa unidade hospitalar da comarca de Joinville e acompanha todos os dias o nascimento de dezenas de crianças. No início deste ano, algo mudou o destino de Maria. Em janeiro, uma mãe adolescente deu à luz uma menina, mas não quis ficar com o bebê. A criança nasceu com hidranencefalia (anomalia encefálica) e é um caso raro e irreversível.

 

Durante o tempo que trabalhava na unidade, Maria ficava contemplando o jeitinho meigo e sensível da criança no berçário. Antes de sair de férias, Maria “falou para o coração”: caso a menina tivesse ali quando retornasse, a adotaria. Passaram-se 20 dias do descanso de Maria e, ao retornar, ela foi surpreendida com a presença do bebê ali no berçário. “É algo inexplicável, sem palavras. Era mesmo para eu ficar com esta linda criança. Como não havia nenhum perfil deste tipo registrado no cadastro nacional de adoção, eu me habilitei a adotá-la. E consegui obter a sua guarda”, emociona-se.

 

No Dia das Mães, completou um mês que o bebê está com ela. “Independente da saúde da criança, ela merece uma família, merece ter uma referência. Na verdade, não sabemos quanto tempo o bebê vai sobreviver, ou seja, é uma expectativa diária”, expõe Maria, que possui dois filhos adolescentes de 11 e 13 anos de idade. Atualmente, a enfermeira está de licença-prêmio e dedica-se integralmente a cuidar da bebê em outra cidade.

 

“Quando se fala em adoção, nosso trabalho é buscar pessoas que desejam ser pais. Além disso, que queiram dar amor sem esperar nada em troca”, destaca a assistente social do fórum de Joinville, Mariane Sauer. Atualmente Joinville possui 300 famílias pretendentes à adoção, sendo que a maioria habilitada manifestou interesse em adotar somente crianças menores de três anos. No ano passado, aconteceram 54 adoções na comarca.

 

Criciúma

“Ainda falta visibilidade para as famílias formadas pela adoção tardia”

“Este ano meu filho fez 14 anos, minha filha 15 e no dia 25 de abril a nossa família fez cinco anos”. Para Francine Busch Nascimento, alguns podem chamar de coincidência, Deus, universo ou acaso, mas ao mesmo tempo que ela e o marido, João Paulo Saade, buscavam a habilitação para adotar, seus filhos estavam em processo de destituição de guarda. No último dia que antecedeu o recesso forense, em 2013, receberam a intimação que estavam oficialmente na fila. Na primeira semana de expediente do fórum da comarca de Criciúma, em 2014, foram convidados a conhecer as crianças, Fernanda e João Alberto, na época com 9 e 10 anos. Eles estavam sendo encaminhados para adoção internacional, mas seriam separados. Ela iria para a Espanha e ele para a França.

 

Após oito anos tentando engravidar e três anos investigando as causas para o insucesso, sempre sem conclusão, o casal viu na adoção uma alternativa para a filiação biológica que não aconteceu. “Nesse processo de três anos, ficamos estudando e não tínhamos uma ideia clara do perfil da ou das crianças, mas foi conversando com pessoas que tiveram experiências de adoção que vimos a diferença entre o filho idealizado e o filho real. Foi uma desconstrução”.

 

Ela e João Paulo começaram a ter o entendimento de algumas questões, como que os filhos teriam uma história prévia, experiências e uma provável biografia difícil e foram se acostumando ao cenário. Para Francine, da mesma maneira que estudou a fundo a gravidez, buscou informações sobre a adoção junto a grupos de apoio, fóruns e a equipe técnica da Vara da Infância de Criciúma. “Algumas pessoas acham que a criança `reseta’ e começa a história de novo, mas não é assim que funciona. Muitas das coisas que eles trouxeram para superar surgiram anos após, que o vínculo é sólido e eles se sentem à vontade para se expor”.

 

A construção deste vínculo, inclusive, aconteceu de modo e tempo diferente para cada uma das crianças. Com a filha, o momento definido por Francine como ponto de mudança, foi em um dia comum, assistindo um seriado infantil, quando a menina disse: “É tão bom ter uma mãe, né? Mas uma mãe igual a você”. Naquele momento, ela soube que o elo estava estabelecido. Já com o filho, foi algo mais íntimo. “Ele estava muito emocionado e disse que estava assim porque nunca tinha sido cuidado antes, queria saber porque eu cuidava dele e se seria para sempre. Eu disse: `É sim filho, é para sempre. Sempre vou ser a tua mãe’. E foi a partir desse momento que ele se sentiu seguro e se permitiu ser filho”.

 

Hoje, o casal é convidado a participar do curso preparatório para adoção, dando depoimentos sobre o processo e a dinâmica familiar. “Ainda falta visibilidade para as famílias formadas pela adoção tardia, deveria ser mais explorado que são famílias funcionais, que se amam, que tem momentos alegres e que os momentos difíceis fazem parte da história e da trajetória dessa família”, ressalta.

 

Lages

Casais têm com a adoção a forma mais intensa de amar

A primeira adoção de uma criança por duas mulheres em Santa Catarina ocorreu em Lages, há 18 anos. Mesma cidade onde mora um casal de pele branca, pais adotivos de uma menina negra. Para eles, as diferenças não existem. Ambas as famílias constroem histórias baseadas na cumplicidade, respeito, dedicação e amor incondicional a filhos gerados em outras barrigas. E esse é só um detalhe vida deles. “Eu sempre soube que ele era meu. Nossa ligação é muito forte e vem de bem antes de nos conhecermos”, diz Angela de Liz da Silva, casada há 21 anos com a Helena Cristina Niggemann. Além de ser o primeiro casal homoafetivo feminino com a união registrada em cartório em Santa Catarina, elas são as pioneiras na adoção de uma criança por duas mulheres no Estado.  

 

Os destinos delas e do Fábio, como foi batizado o menino franzino que chegou com pouco mais de um ano na família, estavam traçados. É nisso que acreditam. Ele foi adotado por outro casal, mas devolvido no estágio de convivência depois de saber dos problemas de saúde do menino. Mas isso não foi empecilho para Angela e Helena, que tinham apenas um jogo de mamadeira quando Fabinho foi morar com elas. Dias depois não tinham mais espaço para guardar tanta coisa que ganharam dos parentes e amigos. “Todos sempre souberam do sonho de sermos mães e nos apoiaram integralmente”, conta Helena.

 

Ela continua levantando à noite para cobrir Fabinho. Apesar de estar curado das doenças do pulmão, o que levou ficar internado diversas vezes para tratamento, o jovem ainda recebe esse dengo. Tanto a mãe Lela quanto a mãe Gorda, como ele sempre as chamou, fazem de tudo para ver o filho feliz. Incentivam a estudar, jogar futebol e tantas outras coisas que gosta de fazer. Uma das maiores alegrias da família foi ter o nome das duas mães na certidão de nascimento. Eles exibem orgulhosos o documento conquistado em 2001, quando o nome de Helena foi incluído na filiação. “Tenho uma família completa e sou muito feliz com as minhas duas mães”, diz sorrindo Fábio Nícolas Niggemann da Silva.

 

Amor supera diferença de raças

A felicidade é algo que transborda na casa da Fabiane e do Rafael Ribeiro. Depois de tentar ter filhos naturalmente e com a ajuda da ciência e não conseguir, decidiram pela adoção. “Viramos a página, colocamos nas mãos de Deus e hoje somos os mais felizes por a Valentina ter nos escolhido”. A espera pela criança teve até ensaio fotográfico de gestante em que o filho estava sendo gerado no coração. A data de 13 de novembro de 2017 é marca de uma das mais emocionantes. Foi quando recebeu a ligação da assistente social do fórum. “Já vinha sonhando com essa hora e aconteceu exatamente como imaginava. Em seguida, fomos buscar nossa filha. Aquele se tornou o dia mais incrível do mundo. Ela nos recebeu com um sorriso tão lindo. A família inteira se emocionou”, lembra Fabiane.

 

Quando se habilitam, os pretendentes precisam preencher um perfil com algumas características. A cor da pele está entre elas. “Para nós isso nunca fez diferença. Poderia ser negro, branco ou qualquer outra cor. Só queríamos um filho”, reforça a mãe da Valentina, que pensa em voltar para o cadastro de adoção para dar um irmãozinho a ela.

 

Chapecó

Em Chapecó, metade das adoções de 2018 é de grupo de irmãos

Depois de muito tentar uma gestação natural e enfrentar a decepção de três fertilizações in vitro malsucedidas, o empresário Luciano Gabbiartti e a engenheira civil Ivone Bampi optaram pela adoção. Decididos, procuraram o setor de Serviço Social e Psicologia do fórum da comarca de Chapecó em busca de duas crianças com idade até cinco anos. Em menos de dois anos, a família estava “perfeita e completa” como Ivone define a convivência dos quatro. “As coincidências da vida nos surpreendem. Isadora faz aniversário no mesmo dia que eu. Desentendimentos e alegrias existem como em qualquer outra família. Não há mais como imaginar nossa vida sem nossos filhos Leonardo e Isadora (de 11 anos e 10 anos respectivamente)”, conta Ivone. Quando questionados sobre o que mais gostam nesta família, Isadora é enfática: “Tudo!”.

 

Dados do Tribunal de Justiça de Santa Catarina apontam uma média de cinco anos de espera para receber a criança desejada. Na comarca de Chapecó, esse tempo é de sete anos. De acordo com a assistente social do fórum, Ângela Daltoé Tregnago, o diferencial da região é o alto número de pessoas que se habilita à adoção, o que aumenta o período de espera, pois há mais pessoas cadastradas. Em contrapartida, causa uma ampliação na aceitação pela adoção tardia, pois os pretendentes buscam reduzir essa espera com a ampliação do perfil desejado. É chamada de adoção tardia a que envolve crianças com mais de três anos de idade. “Atualmente, temos 165 pretendentes à adoção. E destes, 100 buscam crianças e/ou adolescentes nessa faixa etária”, relata.

 

Outra característica da região Oeste são as adoções de grupos de irmãos. Em 2017, o setor de Serviço Social e Psicologia da comarca efetuou cinco adoções de grupos de irmãos com idades entre três e 11 anos. Em 2018, o número também foi satisfatório. Foram dois grupos com quatro irmãos cada, outro trio de irmãos e uma dupla de irmãos.

 

Blumenau

Uma estrela chamada Clarinha

Em Blumenau, o plano do casal Ana Paula Krieck Cascaes e Pedro Cascaes Neto era ter filhos biológicos e depois filhos adotivos, mas a história da família não foi escrita assim. Após quatro anos de casamento, uma estrela chamada Clara apareceu pelo caminho. Ana, hoje com 31 anos, conheceu a recém-nascida no hospital em que trabalhava, em 2014, e se apaixonou. Ela tinha certeza que a menina – fruto de uma violência sexual e que iria para adoção – seria do casal, mas eles sequer estavam na fila de pretendentes e a bebê foi acolhida na semana seguinte. Duas semanas depois, a família adotiva a devolveu.

 

Assim como a bebê de Joinville, Clara veio ao mundo com hidranencefalia, mas ela só foi diagnosticada semanas após o nascimento. “A Clarinha teria pouco tempo de vida e como se fosse uma mercadoria com defeito, eles a devolveram”, conta Pedro, 34 anos. Ana tinha certeza que a bebê havia voltado para eles, mas se convenceu de apenas apadrinhar a pequena enquanto ela estivesse no hospital. Na primeira vez em que Pedro viu a pequena, no dia do batismo feito no berçário, ela teve uma crise de espasmos no colo de Ana e quando Pedro a abraçou, a bebê simplesmente dormiu. A reação inesperada e milagrosa eternizou a relação deles. “Até ali eu não sabia qual era o sentimento de ser pai, eu nunca tinha tido um filho até então, mas naquele momento era como se eu tivesse me desconstruído e construído de volta”, relembra.

 

Pedro e Ana se revezavam nas visitas à Clarinha até o dia em que o hospital recebeu um ofício determinando que a menina fosse para o abrigo. Em quatro dias, eles agilizaram documentos, fizeram exames, entrevistas e o pedido de adoção, pela situação atípica, foi aprovado. A adoção foi curta, pois Clara faleceu após 4 meses e 27 dias de seu nascimento. “A gente gosta de contar a história dela, pois foi ela quem virou a nossa chave. A gente brinca até hoje que “todo dia é dia de Clarinha”, porque foi ela quem mudou a nossa vida”, conta Ana ao lembrar que se não fosse pela menina, o casal não teria entrado da fila de adoção sem restrições.

Ele, ela e os seus quatro filhos

Não demorou para que a história de quatro crianças cruzasse o caminho deles. Advogado, Pedro estava no fórum de uma comarca do Vale quando, ao despachar um processo com a magistrada daquela unidade, acabaram falando sobre filhos, e ela brincou perguntando se ele não queria ser o pai de quatro crianças que aguardavam por um lar. Ele riu e lembra de tratar com graça com Ana ao chegar em casa e pensar quão remota seria a possibilidade.

 

Dias depois, a juíza entrou em contato, apresentou a histórias dos pequenos e questionou se eles aceitavam ser os pais. O casal pediu uma semana para decidir e, caso não aceitassem, as crianças corriam o risco de morar em casas de famílias diferentes, separados. “O processo de destituição do poder familiar ainda não havia transitado em julgado e, com a adoção, nós mudaríamos a vida por completo, de seis pessoas, e sabíamos que nos apaixonaríamos pelas crianças, numa adoção ainda incerta, que poderia ser revertida. Por essa razão, temerosos, consideramos não ficar com as crianças, mas, aflitos, no domingo durante o jantar, um olhou para o outro e disse: `Essa pode ser a última vez que estamos fazendo isso. Vamos adotar? Vamos! ‘”, sorriem ao lembrar.

 

Em 2019 faz dois anos que a família de dois integrantes passou a ter seis. Eles lidam com as peculiaridades de cada um e não raramente, são questionados sobre como é lidar com tantos e com idades tão diferentes (Rafael tem 13 anos, Ana Patrícia, 8, Pedro, 5, e Isabela, 4). Seis meses antes da vinda das crianças a Ana sofreu um aborto espontâneo. A perda foi um grande baque, mas hoje eles entendem que era para acontecer, pois talvez hoje a casa não seria o lar dos quatro irmãos.

 

“Os pais escolhem adotar, as crianças não escolhem ser adotadas. Não há como cobrar um comportamento ou buscar preencher um vazio. A escolha é nossa e nós devemos nos adaptar. Quando a pessoa impõe uma restrição para adotar, ela não tem essa mesma possibilidade se quiser ter uma filiação biológica, você também não sabe como a criança virá, se saudável ou não, teimosa ou não, arteira ou calminha”, finaliza Pedro. Não há um dia que a família não pense e lembre da Clara. Os seus quatro filhos conhecem a história da pequena e sempre que visualizam uma estrela brilhante lá no céu dizem que é a Clarinha olhando por eles.

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